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José Pedro Rodrigues Gonçalves

BAUXI

BAUXI

1917


O livro se abre com o traçado de Bauxi. Ora, o mapa é a metáfora de um lugar dominado (ou a dominar), o desejo de abraçar os mistérios do mundo, de lançar-se na aventura dos descobrimentos, tal qual o viajante em seu ímpeto de aventurar-se, conhecer, dominar e se emocionar. Mas é, também, limites das fronteiras (móveis) da própria memória. Então, a viagem propõe riscos múltiplos e pousos insólitos, colhidos em fragmentos de espaço/tempo e na presença/ausência de pessoas e coisas, sentimentos e devaneios sem ordenação e justificativas. Depósito ladrilhado do que foi e do que poderia ter sido; gestos consagrados e não reconhecidos de que muitos, mesmo os mais renitentes, a eles se consagraram, silente. E só os corajosos enfrentam o desafio. Dele, o leitor sai refeito. 

Nesse torvelinho de memórias, o tecido textual fica entre a história e a literatura. Ambos os discursos, em distintas temporalidades, estruturam os processos de constituição dos (possíveis) sentidos produzidos sobre o local dimensionado no espaço global que é o espaço da memória de José Pedro, mas é também a memória de todos nós. Nessa perspectiva, o micro-campo de produção dinamiza olhares que separam/unem pessoas e lugares, demarcam identidades e constroem enunciados relacionados às condições políticas, sociais e culturais que asseguram a reprodução de um determinado campo de poder, como pensado por Pierre Bourdieu nas relações com o simbólico. Uma via de mão dupla entre o acontecimento histórico e o literário volta-se para a criação de uma linguagem especial (a literária) e, mas especificamente, a Poesia, sem perda das condições de produção. Nesse sentido, mobiliza não apenas o registro de sentimentos, mas o fenômeno da criação traduzível, os anjos e demônios de que fala Paul Valéry.

O universo todo cabe nas figuras que desfilam no pequeno/grande mundo de Bauxi e nós, em maior ou menor grau, nos identificamos com elas: Gino, pessoa “quase invisível que fora criado pela minha avó, estava sempre nas entrelinhas do cotidiano”; Vó Nhanhá; o peão Marciano, “o mais corajoso da região”; Jonas, o policial que “andava com meio uniforme”; Olimpio tiro certo, que lidava com o gado e “bom de conversa”; Maria Sirri-Sirri, que sorria no dialeto bauxiano do “sirrir”; João Cote, neto da Vó Nhanhá e companheiro de pelotear passarinho; os benzedeiros, os contadores e cantadores; João Luiz, meu irmão negro” e tantos outros, perfilando a galeria da infância e da juventude, do Engenho e da casa.

A memória é, portanto, dinâmica e o que José Pedro faz é, exatamente impulsionar o motor que aciona a capacidade de lembrar, de sentir (talvez chorar), mas muito da necessidade de (re)viver: “esse quintal era um grande pomar onde eu misturava meus sonhos de menino com a realidade deliciosa das frutas” (p. 12). A memória tonifica, possibilitando reconstruir imagens do passado cultural de Mato Grosso, pois a memória cultural atua, não só para preservar a herança simbólica institucionalizada, que é também a afirmação dos grupos sociais, mas principalmente porque o ato de rememorar envolve artifícios que coagulam o tempo e fornecem elementos para a compreensão do mundo. No caso específico deste livro, entender cada parcela deste Mato Grosso-mundo que é, afinal, a compreensão da nossa própria identidade.




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